Éramos naquele momento corpos tão vulneráveis um quanto o outro e, no entanto, aquelas plantas tinham conseguido romper o concreto.
O concreto.
Que coisa é essa se não onde estamos confinados? A ocasião atual, a realidade dada, aquilo que querem que nos atemos quando nos pedem para ser “pé no chão”. Não ultrapassar o limite: o sufoco, a clausura. Assim me sentia no meu corpo e na cidade.
Ah, a cidade! São Paulo. A cidade era para mim e para as plantas esse centro de hostilidade, o concreto que solapa o crescimento vulnerável. E era no centro da catástrofe onde acontecia em mim essa revolução íntima, porque, bem a verdade, é da marginalidade aprender a viver em ruínas.
A cidade em ruínas.
Meu corpo em ruínas.
É porque desde cedo cresci no interior e na periferia. Mas achava que a cidade iria dilacerar o meu corpo. Paranoica, frágil, com medo de qualquer contato, era o meu desespero de cuidar do que nascia, porque em São Paulo as pessoas desistiram do vulnerável.
Talvez fosse lenta demais, apequenada demais; Ainda tão miserável! Mas sabia que se elas conseguiram eu também conseguiria. Hoje é minha própria imagem desfigurada que me inspira. Quando o mato irrompe o concreto, eu aprendi o que pode a vida.
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