sábado, 16 de agosto de 2025

Quando o mato irrompe o concreto




Um corpo vivo gestado no subterrâneo do mundo civilizado, um solo escuro, perturbado e escasso. Uma existência que se arrasta para além do confinamento. Olhava para aquelas plantas rasgando a paisagem e sentia com elas uma certa solidariedade, o caso era que nada de atual parecia ser suficiente para dar vazão à vontade íntima do meu pensamento. 

Quando as imagens a que devo me reportar me encerram, me cercam, aquilo que grita por nascença faz sentir com que tudo o que existe agora pareça confinamento. Era a escassez de imagens quem causava o meu delírio, e me fazia desfigurar o que me era oferecido, quase que por necessidade, como quem delira de fome. 

Olhava para o mato arrastando os entulhos de cimento e me inspirava a resiliência. Me dissolvi naquela imagem: compartilhávamos de uma mesma essência. 

Você já viu como se rasgam as folhas? Rasgam rápido, fácil e delicado. Assim também sentia rasgar o meu vulnerável.



Éramos naquele momento corpos tão vulneráveis um quanto o outro e, no entanto, aquelas plantas tinham conseguido romper o concreto.

O concreto.

Que coisa é essa se não onde estamos confinados? A ocasião atual, a realidade dada, aquilo que querem que nos atemos quando nos pedem para ser “pé no chão”. Não ultrapassar o limite: o sufoco, a clausura. Assim me sentia no meu corpo e na cidade.

Ah, a cidade! São Paulo. A cidade era para mim e para as plantas esse centro de hostilidade, o concreto que solapa o crescimento vulnerável. E era no centro da catástrofe onde acontecia em mim essa revolução íntima, porque, bem a verdade, é da marginalidade aprender a viver em ruínas.

A cidade em ruínas.

Meu corpo em ruínas.

É porque desde cedo cresci no interior e na periferia. Mas achava que a cidade iria dilacerar o meu corpo. Paranoica, frágil, com medo de qualquer contato, era o meu desespero de cuidar do que nascia, porque em São Paulo as pessoas desistiram do vulnerável.

Talvez fosse lenta demais, apequenada demais; Ainda tão miserável! Mas sabia que se elas conseguiram eu também conseguiria. Hoje é minha própria imagem desfigurada que me inspira. Quando o mato irrompe o concreto, eu aprendi o que pode a vida.



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