quarta-feira, 1 de julho de 2026

Lâmina I

Sacia em silêncio
o meu prazer é um sigilo
hoje segredo íntimo
porque há tantas já furtaram
nosso sagrado
subjetivo


E sinto ser punido
já não lhe resta outra opção
porque forço esta barreira
rejeitando o seu amor
por demais escravidão


Me machucaram tanto
liberdade e solidão
meu masoquismo
de quebrar com as ilusões
busca um corte delicado
o que em mim atravessa
sou eu mesma que apunhalo


Ainda escolho pela lâmina
retiro do meu coração
e abro um rasgo tímido
jamais por dor em vão
findo o corte da espada
desvelando o véu do mundo
a procurar a própria alma

domingo, 1 de março de 2026

Uma rosa

Uma lágrima escorre das pétalas da rosa
cintilando o seu contorno
como quem verge a sua curva
volúpia devia ser o nome daquela curva
e eu beijo a sua tristeza
como se beijasse a tua
Uma pétala sensível e macia
como a pele nua
Um semblante emudecido
como a luz da lua

Me acusam de sussurrar paixão e melancolia por essas ruas
Mas também sou só uma rosa, rogando por um gesto de ternura

Não vês, meu bem? 
O que sustenta minha flor são seus espinhos
me erguem com afinco pelo caminho
perseguindo um horizonte clandestino
se sou também trabalho árduo e abrasivo
por que não posso descansar em teus braços?

Mas minha tristeza dá nota ao teu perfume
e minhas lágrimas semeiam esse solo
pobre das almas que ficaram sem colo
tiveram de aprender a guardar segredos
como se fossem nomes próprios

E desse silêncio que surge entre nós como promessa abrupta
só me restou dar voz à poesia
já que não mais ouço a tua

É chegado novembro
e a primavera ininterrupta
e uma flor que desabrocha
será o tropo de recomeço
de todas as histórias que irei contar
sobre a minha vida depois de nós duas.

terça-feira, 25 de novembro de 2025

56 da Kabbalah




I - Prece. O meu corpo é uma prece.

II - Fui afetada por essas palavras antes mesmo de entender o que elas significavam; É que o corpo dá sentido ainda que não seja inteligido, quase que por um querer, como querendo que eu o desvende. Prece.

III - Tenho sido tomada por um sentimento enigmático. O segredo, eu li uma vez, se revela assim que o sabemos, é simples, ligeiro, vem rápido, já o enigma continua um mistério mesmo que dele se saiba. Prece.

IV - Tenho rezado a um anjo — 56 da Kabbalah —  para me tirar de um lugar ruim, um lugar aqui dentro ao qual eu não entendo bem o sentimento. Sinto algo como um mofo ou um miasma. Ele me consome, é como se eu quisesse putrefar voltando à terra como composto orgânico, porque seria ali, lá no subsolo, onde eu daria mais vida, já que para o corpo carece a esperança. Prece.

V - É como se eu quisesse aproveitar cada momento de uma morte lenta: desde o corpo inerte, deitado, ao prazer da fome que leva a carne à inanição, até secar, como as folhas que secam e, secando, rompem com o fio da vida ao cair dos galhos que as alimentam; Seria assim o corte desse laço vital que dá liga aos meus órgãos. E quando de vez o corpo parasse, arrastar-se-ia no hall do tempo para a boca das larvas: êxtase de ser devorada; E assim, me deleitando momento por momento desse perpétuo fim, eu estaria livre do cansaço que é erguer-me todos os dias só para no final cair de novo. Mas não é isso o que eu quero. Em algum lugar, e apesar de não parecer, eu acho que quero viver… Prece…

VI - Eu rezo para que o fogo corte o ruído entre o que eu quero e o que eu preciso — e talvez eu precise viver, ainda que seja impreciso. Prece.

VII - Quando morrer em vida, talvez seja alimentada pelo raio da destruição, fazendo algo crescer no interior daquela estrutura demolida. 16 do Tarot, A Torre. “Se não quebrarmos a casca do mundo teremos morrido antes de ter nascido”. Prece.

VIII - Escrevo as minhas próprias Cartas do Fim do Mundo, vazias de significado e cheias de sentido. Eu rezo ao Deus que sustenta o meu universo para que o corpo-construto tenha estrutura mais sólida, ou para que o orgânico não seja solapado pelas barras de aço, ou, ainda, que mesmo que as enfrente cresça de maneira insólita. Eu rezo para… não recuperar algo, pois o passado está perdido, mas para criar algo que daqui em diante floresça. Estou cansada de crenças em nostalgias paralisantes. E nada será como antes. Prece.

IX - Talvez os meus pedidos tenham sido atendidos e eu não me atentei a isso: que o processo é muito mais caótico e destrutivo. Prece.

X - Meu corpo é um poema mergulhado em bálsamo, uma prece contra o precário, a aceitação de um outro fim que não aquele que querem para mim. Prece.

XI - O ardor cresce e abrasa timidamente, mas sopra no meu íntimo. Eu quero incendiar um futuro lindo. Piromancia. Prece.

XII - E na pele uma súplica, um dizer singelo, quando sentir o meu toque, quando compartilhar da minha febre, saiba o que o meu peito te oferece, saiba que o ardor do meu amor não perece, porque continuar tentando assim é a prova viva do que quero para mim, mesmo quando a morte é um teste. Prece.


domingo, 17 de agosto de 2025

Tra.ves.tyr

Minha profanidade é o seu commodity dos finais de semana.

Você não sangra como eu sangro, mas ama quando me fode.

Você queria ser como eu, mas não tem coragem.

Você precisa me consumir já que não pode me possuir, porque isso significaria também se entregar à minha possessão: 

tra.ves.tyr

sábado, 16 de agosto de 2025

Quando o mato irrompe o concreto




Um corpo vivo gestado no subterrâneo do mundo civilizado, um solo escuro, perturbado e escasso. Uma existência que se arrasta para além do confinamento. Olhava para aquelas plantas rasgando a paisagem e sentia com elas uma certa solidariedade, o caso era que nada de atual parecia ser suficiente para dar vazão à vontade íntima do meu pensamento. 

Quando as imagens a que devo me reportar me encerram, me cercam, aquilo que grita por nascença faz sentir com que tudo o que existe agora pareça confinamento. Era a escassez de imagens quem causava o meu delírio, e me fazia desfigurar o que me era oferecido, quase que por necessidade, como quem delira de fome. 

Olhava para o mato arrastando os entulhos de cimento e me inspirava a resiliência. Me dissolvi naquela imagem: compartilhávamos de uma mesma essência. 

Você já viu como se rasgam as folhas? Rasgam rápido, fácil e delicado. Assim também sentia rasgar o meu vulnerável.



Éramos naquele momento corpos tão vulneráveis um quanto o outro e, no entanto, aquelas plantas tinham conseguido romper o concreto.

O concreto.

Que coisa é essa se não onde estamos confinados? A ocasião atual, a realidade dada, aquilo que querem que nos atemos quando nos pedem para ser “pé no chão”. Não ultrapassar o limite: o sufoco, a clausura. Assim me sentia no meu corpo e na cidade.

Ah, a cidade! São Paulo. A cidade era para mim e para as plantas esse centro de hostilidade, o concreto que solapa o crescimento vulnerável. E era no centro da catástrofe onde acontecia em mim essa revolução íntima, porque, bem a verdade, é da marginalidade aprender a viver em ruínas.

A cidade em ruínas.

Meu corpo em ruínas.

É porque desde cedo cresci no interior e na periferia. Mas achava que a cidade iria dilacerar o meu corpo. Paranoica, frágil, com medo de qualquer contato, era o meu desespero de cuidar do que nascia, porque em São Paulo as pessoas desistiram do vulnerável.

Talvez fosse lenta demais, apequenada demais; Ainda tão miserável! Mas sabia que se elas conseguiram eu também conseguiria. Hoje é minha própria imagem desfigurada que me inspira. Quando o mato irrompe o concreto, eu aprendi o que pode a vida.



domingo, 10 de agosto de 2025

Eu, deserto

Pisada. É preciso ser pisada, a areia, pra que se aterre, pra que ganhe forma. Eu e a solidão são esse deserto da falta. A solidão, as dunas ao vento, eu. Meu corpo ao vento, a solidão. Tempestade de areia. Meu corpo se esvai. No íntimo e no silêncio sinto o meu corpo virar pó. Minha existência se esvai. Esse deserto — minha alma — sem alguém que lhe pise não se aterra. É preciso seguir os passos de um outro alguém. As pegadas. Minha imagem são as pegadas de um outro, mas tão logo o vento vem de novo, ela se vai. Como formar imagem no silêncio? Algumas pegadas mais profundas estão marcadas em minh’alma. Naquela tumba críptica enterrada, uma frase, um poema:

“Quando as lágrimas ruírem teu castelo de areia

mulher desértica

ausência de ausência

falta da falta

quando nada mais te sacia

estarei lá para você pisar os meus rastros

chão pisado, sangue pisado”


Palavras proféticas de um conto de origem sagrado. 


Dizem que o culto à deusa primeira durou mais de 5 mil anos, depois vieram tantos outros: templos com preceitos de cuidado, cultos com sacrifícios diários... E, contudo, tudo ruíra. Dizem que nada se assenta nesse solo porque a alma do deserto é iconoclasta.


O deserto, meu corpo.


Essa repulsa, essa rejeição, esse querer dúbio, esse amor confuso são imagens que falam das imagens que um dia tive de mim. Entre preservar a potência de poder tudo e o nada há uma semelhança singela. Ambos estão embrenhados de medo. Ambos levam ao definhamento, à morte.

 

A questão de "si" é uma questão da geração de imagens. A regra regente é quimérica. Quer o outro, mas que outro? Que desejo? Se assujeitar ao desejo do outro é o drama do escravo. O deserto, essa terra de escravizados, conta tão bem nos seus rastros as histórias de sujeição. 


“Foi assujeitado”.

Não tem palavra mais assustadora, mais inliberta, mais prisioneira e escrava do que essa? Quem é assujeitado o é sempre por um outro alguém. Talvez nunca tenha existido, a princípio, quem fosse dono de si.


A quimera não se decide se é leão ou rato, cão ou gato, cobra ou lagarto. Quer sempre viver na égide do “e”: “e…e…e...”. Assim, nunca terá de escolher. É bonita sua potência, quase de um misticismo, para quem olha de longe. No seu íntimo, a fera-inseto esconde um medo abissal, o de se encerrar. A repulsa de definitivamente ser algo lhe revela a carência de precisar ser para um outro: é preciso de um pé que lhe encaixe de novo. Então, assim, se mantendo sempre um pouco sem forma, sempre um tanto deformada, a quimera escolhe se é leão ou rato ao olhar de quem agrada. No final, nenhuma imagem realmente lhe pertence.


O deserto de ausência diz de um nada pleno. Repelir tudo que diz de si: é essa a potência da morte. Levar-se ao abandono, ao descaso. Viver a vida arrastada por um jogo de forças que lhe empurram para qualquer lado. É isso o que tenho sido.


Vivo cada vez mais em dúvida se é possível fugir disso. Drama constitutivo. Me pergunto se a saída é ver algo de positivo nisso. Só me resta ser essa miscelânea de templos, fragmento de imagens, recortes de carne, corpo em ruínas?


O vício do meu corpo parasitário, do meu desejo-demônio, escravo de humanos, faz da minha fome uma volição por hospedeiros. Será que um dia posso eu habitar o meu próprio corpo? Agora, parece muito árido esse deserto.


É preciso ser pisada sem dó, com força, por maldade. Sou grata a esse outro por quem rasgo minha carne, buscando sua flor nos espinhos do cacto. Sua alma tão íntima com a minha, garota desértica. Talvez possamos nos inundar de areia até o céu para suprir essa falta. Morreremos felizes de asfixia.


Você, tão cheia de si, tão cheia de nada, chega ao meu deserto trazendo oferendas: ouro, tecidos finos, prata; E nada de água. Como poderia? Um solo tão seco quanto o meu. Então deitemos juntas sob o sol, e deixemos erodir até o pó a pedra bruta que tu chamas de coração.


Corrosão foi o nome do nosso amor.


E desse nada de que é feita fui ao teu desejo. E quando me abandonou quis voltar ao nada. Mas sussurra uma dissonância no coração da quimera: "Não podes evitar de ter te tornado algo". Esperança ou escárnio? Porque agora sou obrigada eu mesma a lidar com esse corpo feio, essa figura deformada. 


É triste o amor que reservei para mim.


Mais visitadas