Uma lágrima escorre das pétalas da rosa
cintilando o seu contorno
como quem verge a sua curva
volúpia devia ser o nome daquela curva
e eu beijo a sua tristeza
como se beijasse a tua
Uma pétala sensível e macia
como a pele nua
Um semblante emudecido
como a luz da lua
Me acusam de sussurrar paixão e melancolia por essas ruas
Mas também sou só uma rosa, rogando por um gesto de ternura
Não vês, meu bem?
O que sustenta minha flor são seus espinhos
me erguem com afinco pelo caminho
perseguindo um horizonte clandestino
se sou também trabalho árduo e abrasivo
por que não posso descansar em teus braços?
Mas minha tristeza dá nota ao teu perfume
e minhas lágrimas semeiam esse solo
pobre das almas que ficaram sem colo
tiveram de aprender a guardar segredos
como se fossem nomes próprios
E desse silêncio que surge entre nós como promessa abrupta
só me restou dar voz à poesia
já que não mais ouço a tua
É chegado novembro
e a primavera ininterrupta
e uma flor que desabrocha
será o tropo de recomeço
de todas as histórias que irei contar
sobre a minha vida depois de nós duas.