domingo, 10 de agosto de 2025

Eu, deserto

Pisada. É preciso ser pisada, a areia, pra que se aterre, pra que ganhe forma. Eu e a solidão são esse deserto da falta. A solidão, as dunas ao vento, eu. Meu corpo ao vento, a solidão. Tempestade de areia. Meu corpo se esvai. No íntimo e no silêncio sinto o meu corpo virar pó. Minha existência se esvai. Esse deserto — minha alma — sem alguém que lhe pise não se aterra. É preciso seguir os passos de um outro alguém. As pegadas. Minha imagem são as pegadas de um outro, mas tão logo o vento vem de novo, ela se vai. Como formar imagem no silêncio? Algumas pegadas mais profundas estão marcadas em minh’alma. Naquela tumba críptica enterrada, uma frase, um poema:

“Quando as lágrimas ruírem teu castelo de areia

mulher desértica

ausência de ausência

falta da falta

quando nada mais te sacia

estarei lá para você pisar os meus rastros

chão pisado, sangue pisado”


Palavras proféticas de um conto de origem sagrado. 


Dizem que o culto à deusa primeira durou mais de 5 mil anos, depois vieram tantos outros: templos com preceitos de cuidado, cultos com sacrifícios diários... E, contudo, tudo ruíra. Dizem que nada se assenta nesse solo porque a alma do deserto é iconoclasta.


O deserto, meu corpo.


Essa repulsa, essa rejeição, esse querer dúbio, esse amor confuso são imagens que falam das imagens que um dia tive de mim. Entre preservar a potência de poder tudo e o nada há uma semelhança singela. Ambos estão embrenhados de medo. Ambos levam ao definhamento, à morte.

 

A questão de "si" é uma questão da geração de imagens. A regra regente é quimérica. Quer o outro, mas que outro? Que desejo? Se assujeitar ao desejo do outro é o drama do escravo. O deserto, essa terra de escravizados, conta tão bem nos seus rastros as histórias de sujeição. 


“Foi assujeitado”.

Não tem palavra mais assustadora, mais inliberta, mais prisioneira e escrava do que essa? Quem é assujeitado o é sempre por um outro alguém. Talvez nunca tenha existido, a princípio, quem fosse dono de si.


A quimera não se decide se é leão ou rato, cão ou gato, cobra ou lagarto. Quer sempre viver na égide do “e”: “e…e…e...”. Assim, nunca terá de escolher. É bonita sua potência, quase de um misticismo, para quem olha de longe. No seu íntimo, a fera-inseto esconde um medo abissal, o de se encerrar. A repulsa de definitivamente ser algo lhe revela a carência de precisar ser para um outro: é preciso de um pé que lhe encaixe de novo. Então, assim, se mantendo sempre um pouco sem forma, sempre um tanto deformada, a quimera escolhe se é leão ou rato ao olhar de quem agrada. No final, nenhuma imagem realmente lhe pertence.


O deserto de ausência diz de um nada pleno. Repelir tudo que diz de si: é essa a potência da morte. Levar-se ao abandono, ao descaso. Viver a vida arrastada por um jogo de forças que lhe empurram para qualquer lado. É isso o que tenho sido.


Vivo cada vez mais em dúvida se é possível fugir disso. Drama constitutivo. Me pergunto se a saída é ver algo de positivo nisso. Só me resta ser essa miscelânea de templos, fragmento de imagens, recortes de carne, corpo em ruínas?


O vício do meu corpo parasitário, do meu desejo-demônio, escravo de humanos, faz da minha fome uma volição por hospedeiros. Será que um dia posso eu habitar o meu próprio corpo? Agora, parece muito árido esse deserto.


É preciso ser pisada sem dó, com força, por maldade. Sou grata a esse outro por quem rasgo minha carne, buscando sua flor nos espinhos do cacto. Sua alma tão íntima com a minha, garota desértica. Talvez possamos nos inundar de areia até o céu para suprir essa falta. Morreremos felizes de asfixia.


Você, tão cheia de si, tão cheia de nada, chega ao meu deserto trazendo oferendas: ouro, tecidos finos, prata; E nada de água. Como poderia? Um solo tão seco quanto o meu. Então deitemos juntas sob o sol, e deixemos erodir até o pó a pedra bruta que tu chamas de coração.


Corrosão foi o nome do nosso amor.


E desse nada de que é feita fui ao teu desejo. E quando me abandonou quis voltar ao nada. Mas sussurra uma dissonância no coração da quimera: "Não podes evitar de ter te tornado algo". Esperança ou escárnio? Porque agora sou obrigada eu mesma a lidar com esse corpo feio, essa figura deformada. 


É triste o amor que reservei para mim.


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