terça-feira, 25 de novembro de 2025

56 da Kabbalah




I - Prece. O meu corpo é uma prece.

II - Fui afetada por essas palavras antes mesmo de entender o que elas significavam; É que o corpo dá sentido ainda que não seja inteligido, quase que por um querer, como querendo que eu o desvende. Prece.

III - Tenho sido tomada por um sentimento enigmático. O segredo, eu li uma vez, se revela assim que o sabemos, é simples, ligeiro, vem rápido, já o enigma continua um mistério mesmo que dele se saiba. Prece.

IV - Tenho rezado a um anjo — 56 da Kabbalah —  para me tirar de um lugar ruim, um lugar aqui dentro ao qual eu não entendo bem o sentimento. Sinto algo como um mofo ou um miasma. Ele me consome, é como se eu quisesse putrefar voltando à terra como composto orgânico, porque seria ali, lá no subsolo, onde eu daria mais vida, já que para o corpo carece a esperança. Prece.

V - É como se eu quisesse aproveitar cada momento de uma morte lenta: desde o corpo inerte, deitado, ao prazer da fome que leva a carne à inanição, até secar, como as folhas que secam e, secando, rompem com o fio da vida ao cair dos galhos que as alimentam; Seria assim o corte desse laço vital que dá liga aos meus órgãos. E quando de vez o corpo parasse, arrastar-se-ia no hall do tempo para a boca das larvas: êxtase de ser devorada; E assim, me deleitando momento por momento desse perpétuo fim, eu estaria livre do cansaço que é erguer-me todos os dias só para no final cair de novo. Mas não é isso o que eu quero. Em algum lugar, e apesar de não parecer, eu acho que quero viver… Prece…

VI - Eu rezo para que o fogo corte o ruído entre o que eu quero e o que eu preciso — e talvez eu precise viver, ainda que seja impreciso. Prece.

VII - Quando morrer em vida, talvez seja alimentada pelo raio da destruição, fazendo algo crescer no interior daquela estrutura demolida. 16 do Tarot, A Torre. “Se não quebrarmos a casca do mundo teremos morrido antes de ter nascido”. Prece.

VIII - Escrevo as minhas próprias Cartas do Fim do Mundo, vazias de significado e cheias de sentido. Eu rezo ao Deus que sustenta o meu universo para que o corpo-construto tenha estrutura mais sólida, ou para que o orgânico não seja solapado pelas barras de aço, ou, ainda, que mesmo que as enfrente cresça de maneira insólita. Eu rezo para… não recuperar algo, pois o passado está perdido, mas para criar algo que daqui em diante floresça. Estou cansada de crenças em nostalgias paralisantes. E nada será como antes. Prece.

IX - Talvez os meus pedidos tenham sido atendidos e eu não me atentei a isso: que o processo é muito mais caótico e destrutivo. Prece.

X - Meu corpo é um poema mergulhado em bálsamo, uma prece contra o precário, a aceitação de um outro fim que não aquele que querem para mim. Prece.

XI - O ardor cresce e abrasa timidamente, mas sopra no meu íntimo. Eu quero incendiar um futuro lindo. Piromancia. Prece.

XII - E na pele uma súplica, um dizer singelo, quando sentir o meu toque, quando compartilhar da minha febre, saiba o que o meu peito te oferece, saiba que o ardor do meu amor não perece, porque continuar tentando assim é a prova viva do que quero para mim, mesmo quando a morte é um teste. Prece.